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Fio B na conta de energia solar: entenda o impacto real em 2025 (com exemplo real)

Mercado

Fio B na conta de energia solar: entenda o impacto real em 2025 (com exemplo real)

Pedro Vasconcelos
Escrito por Pedro Vasconcelos em 13 de outubro de 2025

“Minha conta veio R$ 577 mesmo com 100% do consumo compensado!” — Entenda o que aconteceu

Nos últimos dias, um cliente me procurou bastante surpreso com a fatura de energia:

“Eu gerei toda a energia que consumi… como é que minha conta ainda veio R$577,49?”

Essa é uma dúvida muito comum — e essa conta real é um ótimo exemplo para explicar o que realmente permanece na fatura de energia mesmo quando todo o consumo é compensado pelos créditos solares.

1. Entendendo a compensação de créditos de energia

Quando você tem um sistema de energia solar, a energia gerada e injetada na rede gera créditos em kWh. Esses créditos compensam a energia consumida em outro horário (ex.: à noite), de modo que:

  • 💡 A energia ativa (kWh) não é cobrada,
  • ⚠️ Mas encargos e tributos específicos permanecem, pois não são compensáveis pela geração solar.

Ou seja, mesmo com o consumo totalmente compensado, a conta de luz não zera.

2. O caso real: destrinchando a conta do cliente

Abaixo estão os principais itens da fatura do cliente:

ItemQuantidade (kWh)Tarifa Unit. (R$)Valor (R$)ICMS (R$)
CIP Iluminação Pública102,960,00
Bandeira Vermelha1.8640,10333192,6038,52
Energia Ativa Fornecida TE1.8640,32166599,57119,91
Energia Ativa Injetada TE (GD)1.864-0,32166-599,57-119,91
Energia Ativa Fornecida TUSD1.8640,609881.136,81227,36
Energia Ativa Injetada TUSD (GD)1.864-0,35011-652,610,00
Total da FaturaR$ 577,49227,36

Note que:

  • A quantidade de energia fornecida e injetada foi exatamente a mesma (1.864 kWh), ou seja, 100% do consumo foi compensado.

Ainda assim, houve cobrança de CIP, ICMS, bandeira tarifária e parcela do Fio B, que é a parte da TUSD não compensada.

3. Por que a conta ficou acima de R$ 500?

Existem três principais motivos:

1. CIP — Contribuição de Iluminação Pública

A CIP é um tributo municipal proporcional ao consumo e não pode ser compensada com créditos de energia.

Nesse caso, foi de R$ 102,96, valor já suficiente para representar uma parcela relevante da fatura.

Observação: A CIP poderia ser ainda maior caso não houvesse consumo instantâneo — ou seja, a energia utilizada diretamente do sistema fotovoltaico durante o dia, sem passar pelo medidor da distribuidora, o que evita que esse consumo seja tributado.


2. Fio B — Parte da TUSD que não é compensada

O Fio B é a parte da TUSD que remunera a infraestrutura da distribuidora — postes, transformadores, cabos etc.

Antes da Lei 14.300/2022, o Fio B era 100% compensado.
Agora, para conexões realizadas após janeiro de 2023, há uma cobrança escalonada até 2029:

Ano de Conexão% do Fio B cobrado
202315%
202430%
202545%
202660%
202775%
202890%
2029 em diante100%

De acordo com o site da ANEEL, o valor atual do Fio B para consumidores residenciais (B1) na Enel Ceará é de:


{Fio B} = R$ 270,92 / MWh = R$ 0,27092 / kWh
 

Aplicando os 45% de 2025:

0,27092  x  45% = R$ 0,12191 / kWh
 

Essa é a parcela que deveria ser cobrada na fatura referente ao Fio B.

Contudo, a Enel cobrou efetivamente R$ 0,13779/kWh, valor um pouco maior — cerca de R$ 0,01588/kWh a mais.

Essa diferença, no consumo de 1.864 kWh, representa aproximadamente R$ 29,60 a mais na fatura.


3. ICMS sobre a TUSD

O ICMS incide sobre a TUSD total, independentemente de compensação de energia.
Considerando TUSD de R$ 0,60988/kWh e ICMS de 20%:

 0,60988 x 20% = R$ 0,12198 / kWh
 

Esse valor também não é abatido pelos créditos solares.


4. O que aprendemos com esse caso real

Mesmo com 100% da energia compensada, a fatura do cliente ficou em R$ 577,49 porque:

  • 💡 CIP: R$ 102,96 — tributo municipal não compensável;
  • Fio B: R$ 0,12191/kWh (por lei) — parcela da TUSD que deve ser cobrada parcialmente;
  • 🧾 ICMS: R$ 0,12198/kWh — imposto estadual que incide sobre a TUSD;

🚨 E ainda R$ 0,0159/kWh a mais do que o valor esperado no Fio B, possivelmente por arredondamentos ou composição tarifária interna da Enel.

5. Solução prática: reduzir custos com sistema híbrido e baterias

Uma das formas mais eficientes de reduzir ainda mais a conta de luz, mesmo com 100% do consumo compensado, é investir em sistemas híbridos com baterias.

Esse tipo de sistema permite armazenar parte da energia gerada durante o dia e utilizá-la à noite, diminuindo ou até zerando o consumo vindo da concessionária no período em que a geração solar não ocorre.

Na prática, isso reduz a quantidade de energia injetada na rede — e, consequentemente, a exposição aos encargos e impostos incidentes sobre a energia compensada, como o Fio B e ICMS.

No caso deste cliente, ele já possui um sistema híbrido instalado, mas que atualmente está configurado apenas para função de backup — ou seja, a bateria entra em ação apenas em casos de falta de energia da rede.

A próxima etapa será avaliar a reconfiguração do sistema para que o banco de baterias seja utilizado também no período noturno, maximizando o autoconsumo e minimizando a dependência da rede pública, o que deve reduzir significativamente o valor da fatura nos próximos meses.

6. Considerações finais

Esse caso mostra claramente que compensar 100% do consumo não significa zerar a fatura.

Mesmo com a energia solar suprindo toda a demanda, existem encargos e tributos remanescentes — e o consumidor precisa conhecê-los para evitar surpresas.

Além disso, diferenças pequenas por kWh, como a que encontramos no valor cobrado de Fio B, podem representar dezenas ou centenas de reais por ano, especialmente para quem tem consumo elevado.

Por isso, é essencial:

  • Entender a composição da fatura;
  • Acompanhar as resoluções da ANEEL;
  • E, quando necessário, questionar formalmente a distribuidora.

✍️ Esse é um exemplo real que analisei pessoalmente. Nosso papel como profissionais do setor solar vai além de instalar painéis — também envolve educar e orientar clientes para que entendam sua fatura e exerçam seus direitos de forma consciente. ☀️


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